Naquele dia o sol estava em seu pico de força, fazendo com que o garoto
pousasse sua mão direita em frente aos olhos semiabertos para tentar ler a
placa em branco e preto tomando quase toda a fachada do prédio de aspecto
antigo. Sua mãe, andando de um lado para o outro, mostrava-se nervosa enquanto
que seu pai apenas sorria lhe dando conselhos sobre garotas e camisinhas.
Ao redor, diversas outras famílias parecidas faziam quase o mesmo. Em um
ambiente onde despedidas eram o começo de uma nova fase para jovens adultos, as
palavras se misturavam à amplificadores de vozes que falavam sobre clubes e casas
onde os calorosos poderiam se juntar. Malas e abraços domavam o gramado
verde vivo e algumas novas amizades se formavam ao pé da escadaria principal.
— Ethan, me escute, lembre-se que estaremos há cinco horas de distância
então antes de fazer qualquer besteira, por favor filho, pense que não
estaremos no andar de baixo para te defender. Entendeu? — Olivia disse,
segurando as bochechas do filho entre suas mãos.
Olivia estava em seus quarenta anos, e dotada de extrema inteligência
também já havia passado por aquela universidade. Lugar onde conheceu Benjamin,
na época um jogador de futebol americano que a vivia perseguindo pelos
corredores da Ottawa University. Entre os diversos foras que vivia a dar ao
garoto, sequer imaginou que aquele seria o pai de seu futuro único filho.
— Olivia, deixe o menino respirar. Ele mal chegou e já tem que se
preocupar com o que vai ou não fazer? Deixe esse menino viver a vida! —
Benjamin dizia, os braços cruzados.
— Você se recorda das loucuras que nós fizemos nesse gramado aqui mesmo?
Claro que não vou deixar ele liberto por aí, Benjamin! — Olivia apontou para o
chão. Ethan revirou os olhos, recusando-se a imaginar o que os pais já haviam
feito ali.
— Filho, se concentre em seus estudos mas nunca esqueça de curtir a
grande Ottawa porque depois que sair daqui uma rede de farmácias estará
esperando por você e confie em mim, aquela empresa é um saco semana após
semana.
— Benjamin, por favor! — Olivia suspirou cansada.
— Eu nunca fui de fazer besteira, mãe, porque faria agora? — Ethan finalmente
falou, jogando seus cabelos ruivos para trás, os olhos azuis encarando as
feições quase cansadas de Olivia.
Antes que a mulher pudesse contradizer o filho, outro garoto se
aproximou passando os braços pela cintura de Ethan com um sorriso travesso nos
lábios e um cigarro pendendo entre seus dedos da mão direita, o loiro tinha um
ar de quem já conhecia a família melhor do que ninguém.
— Pode deixar comigo, Senhorita Goulart, eu irei cuidar muito bem do
Ethanzinho! — O garoto disse, focando seus olhos verdes nas orbes azuladas de
Olivia.
— Não sei se posso ficar mais preocupada do que isso. — A ruiva arrancou
o tabaco do outro, jogando-o ao chão para pisar raivosa sobre ele. — Ainda não
tomou juízo, Luke? — Ralhou.
— E nem pretendo! — Luke respondeu puxando Ethan para um abraço frontal.
Ethan sorria como um bobo assistindo o circo, seus braços prendiam-se
firme às costas largas de Luke. A saudade imensa que sentia por seu melhor
amigo chegava a doer em noites onde ligações de skype não ajudavam em nada na
distância que separava um do outro. Ethan e Luke se conheceram durante suas
infâncias, vizinhos e amigos de parquinho cresceram por entre as ruas de
Brandford aprontando com as casas de vizinhos rabugentos e correndo até a
escola fundamental para aulas chatas.
Quando cresceram e o ensino médio terminou, Luke por ser dois anos mais
velho seguiu o rumo da cidade grande para cursar arquitetura deixando Ethan e
seus óculos nerds ainda ao primeiro ano. Agora, dois anos mais tarde, os dois
finalmente estavam juntos novamente, prontos para compartilharem de suas vidas
universitárias.
— Sua mãe fez aqueles bolinhos de chocolate que amamos. — Ethan avisou,
apontando para sua mochila.
— Olivia, precisamos ir. O avião sai em menos de meia hora, e eu ainda
tenho uma reunião com aqueles patrocinadores. — Benjamin falou, passando o dedo
pela tela de seu celular.
— Tudo bem, deixa só eu dar um beijo no meu bebê.
— Mãe… — Ethan reclamava ao sentir os lábios rosados da mãe no topo de
sua cabeça. Fingia não gostar, mas sabia que sentiria falta de todo aquele
carinho e apoio incondicional que seus pais o davam.
Foram mais dez minutos de abraços, conselhos e sermões antes que
Benjamin puxasse a esposa pela mão esquerda e a arrastasse até o carro
estacionado metros de distância e com algumas outras palavras, os dois partiram
em viagem agora de volta para seus lares. Ethan sentiu seus olhos encherem de
água passando as costas de suas mãos por seus olhos secando os agora sem
óculos.
— Ainda continua um bebê chorão, Ethan? — Luke puxou a carteira de
cigarro, acendendo mais um já que o último teve um trágico fim abaixo dos
sapatos caros de Olivia.
— E você Luke, continua sendo um viciado irresponsável que sentirá falta
de seus pulmões no futuro? — Ethan indagou puxando a mala mais pesada para que
as rodinhas aparecesse.
— Touché, ruivinho. — Luke sorriu, o cigarro recém ascendido entre os
lábios.
Ethan havia sentido falta do cheiro único que vinha da mistura que os
perfumes fortes de Luke faziam com a fumaça de seus cigarros. Aquele sentimento
de estar protegido pelo garoto descolado e sem papas na língua era quase a sua
parte preferida de está lado a lado com o loiro. Quase, porque a parte
preferida era aquela animação incansável que Lewis tinha, tirando o
fôlego de Ethan apenas por sorrir ou gritar para quem quisesse ouvir que Luke
Lewis estava na área.
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